• Arquivo de marcações Tite
  • “O maior da história”

    Nas mais diversas modalidades desportivas, quando se fala em “maior nome da história“, geralmente se pensa em dois aspectos: o primeiro deles é mais objetivo, e se refere às conquistas, à totalidade dos números, vitórias, títulos, premiações, à constância nas disputas, ao domínio estatístico; o outro é subjetivo e fala da importância do personagem, contexto, influência, contribuições históricas, carisma, espetáculo, além da opinião de especialistas da área.

    Raramente os dois aspectos se unem, e é isso o que gera acalorados e intermináveis debates.

    No tênis e no futebol aparecem casos de atletas que conseguiram dominar tanto objetiva quanto subjetivamente: Pelé é o único a vencer 3 Copas do Mundo, enquanto Federer é o que mais ganhou Grand Slams. Mais que isso, porém, foram absolutamente inovadores em suas épocas, dando a impressão de estarem “à frente do tempo”.

    No atletismo e na natação, com Usain Bolt e Michael Phelps, vemos exemplos em que os atletas, impulsionados por um período no qual a mídia passou a finalmente dar destaque maior a certas modalidades, alçaram a posição máxima justamente pelas constantes e massivas conquistas – especialmente nos Jogos Olímpicos.

    Já na NBA e na F1 temos o oposto: Michael Jordan e Ayrton Senna não são os maiores vencedores das categorias, mas geralmente são citados como os principais nomes das mesmas por conta da época e da forma em que atuaram: marcaram o período de expansão da marca, e são muito lembrados pela plasticidade e pela superação que protagonizaram.

    Longe dos recordes, mas no topo do esporte
    Longe dos recordes, mas no topo do esporte

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    O eminente título do Campeonato Brasileiro de 2015 será o sexto conquistado pelo Corinthians na competição e o sexto da carreira de Tite no comando da equipe. Quando do triunfo da Recopa Sul-Americana, em 2013, Tite ultrapassou Osvaldo Brandão para se tornar o técnico com mais títulos à frente do clube.

    Confira a lista:

    1- Tite (2 Brasileiros, 1 Paulista, 1 Libertadores, 1 Recopa e 1 Mundial) — 6
    2- Brandão (2 Paulistas e 2 Rio-São Paulo) — 4
    3- Rato (2 Paulistas e 1 Rio-São Paulo), Nelsinho Baptista (1 Brasileiro, 1 Supercopa e 1 Paulista), Oswaldo de Oliveira (1 Paulista, 1 Brasileiro e 1 Mundial) e Mano Menezes (1 Série B, 1 Paulista e 1 Copa do Brasil) — 3

    Como se vê, só os títulos não contam a história toda: Nelsinho e Oliveira têm números maiores do que os trabalhos que realizaram, enquanto Rato e Mano Menezes, e o próprio Brandão, ganharam menos do que poderiam e mereciam.

    Mas os que mais ganharam são, também, os dois que por mais tempo estiveram no comando: atualmente, Tite soma 338 partidas à frente do Corinthians (33ª rodada): está 97 jogos atrás de Osvaldo Brandão. No “clube dos 200” aparecem ainda Rato (256), Mano Menezes (248) e Amílcar Barbuy (240). Cumprindo seu contrato, Tite deve se tornar o primeiro a romper a marca de 500 jogos.

    Vejamos algumas marcas das equipes comandadas por Adenor Leonardo Bacchi:

    – 4ª maior série invicta da história do clube (26 jogos sem perder ao longo de 2015) — a maior sequência desde 1957;

    – Maior série invicta da história da Taça Libertadores de América (17 jogos entre 2012 e 2013);

    – 2ª maior série invicta do Campeonato Brasileiro de pontos corridos (17 jogos em 2015, 1 a menos que SPFC/2008 e CAP/2004) — a maior sequência da equipe na história da competição (desde 1971);

    – 2º melhor aproveitamento em início de Campeonato Brasileiro (93.3%, sendo 9 vitórias e 1 empate, em 2011) — melhor performance da história do clube no mesmo período;

    Outros números bastante significativos podem surgir do Brasileiro-2015: com mais sete pontos, será a maior pontuação do novo formato do Campeonato com 20 clubes. Além disso, o Corinthians pode se tornar o time com mais gols marcados e maior número de vitórias na história desta competição. Já a defesa não poderá chegar ao recorde: é apenas a segunda melhor dos últimos dez anos.

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    A temporada atual foi um resumo da história de Tite no clube: começo meio desconfiado, início arrasador da Libertadores, duas eliminações em seguida, alguns questionamentos, a saída de diversos e fundamentais atletas, derrotas contundentes no início do Brasileiro…

    A equipe titular que iniciou a campanha na Libertadores-2015 tinha os seguintes atletas: Cássio, Fagner, Gil, Felipe, Fábio Santos, Ralf, Jadson, Elias, Renato Augusto, Emerson e Guerrero. 7 dos 11 foram contratações da equipe no período das grandes glórias (2011-2012), o que mostra o entrosamento absoluto do time – Ralf e Elias são ainda mais antigos, enquanto Jadson e Fagner já estavam na equipe desde o começo do ano anterior.

    Porém, no meio da temporada, três desses titulares saíram (Guerrero, Emerson e Fábio Santos), além de boas peças de reposição, como Petros. Em entrevista ao “Bola da Vez” Renato Augusto falou sobre o período crucial da temporada: “cheguei pro Tite e falei: ‘e aí, vai sair mais alguém?! Porque ainda dá tempo de eu pular fora…”“.

    Foi a fase que sucedeu a vexaminosa eliminação para o Guarany, do Paraguay, e que teve como momento mais duro a incontestável derrota para o Palmeiras (2 a 0) na Arena Corinthians.

    Não foram poucos, entre torcedores e imprensa, os que apontaram o Corinthians como “estagnado”, “decepção”, “obsoleto”. Houve quem fosse além e dissesse que a equipe lutaria para fugir do rebaixamento (sic).

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    Diversas mudanças foram feitas. Novas contratações chegaram. Atletas foram promovidos da base. Outros, que vinham amargando a reserva, tiveram chances.

    E o time voltou a apresentar nível igual ou melhor do que aquele que encantou o país no primeiro trimestre – vale ler a crônica de PVC após a ótima vitória contra o Flamengo no Maracanã.

    Mas não parou por aí: na virada de turno do Brasileirão, muitas baixas.

    Luciano, que se tornara titular e vinha de 5 gols nos últimos 3 jogos, machucou o joelho e foi descartado da temporada. Uendel e Fagner, donos absolutos de suas posições, se machucaram dando lugar a improvisações (em vários jogos houve um “rodízio defensivo”), a um inexperiente Guilherme Arana e a um desacreditado Edílson.

    Bruno Henrique, que tomara a posição de Ralf, lesionou-se. Rildo, que fora contratado e se tornara uma espécie de “Tupãzinho 2015“, se machucou aos 3 minutos da primeira partida que começava como titular.

    E o time continuou jogando demais!

    Reflexo das mudanças táticas e de posicionamento (leia ótimo comparativo entre 2014 e 2015) daquele que é (re)conhecido como “o melhor meio de campo do país”.

    Será que isso significa que o técnico é foda?…

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    Na entrevista coletiva do anúncio de seu retorno, Tite reconheceu que a ofensividade era seu ponto fraco e disse que buscou “trabalhos específicos ofensivos. Queria ter uma gama de trabalhos ofensivos maiores para acrescentar“. O treinador ainda prometeu “intensidade alta, com concentração e velocidade na sua execução“.

    Dez meses depois, o resultado está aí.

    2015 foi o ano que, de uma vez por todas, consagrou Tite como o maior treinador da história do Corinthians.

    E, como Pelé e Federer, ele tem a felicidade de ser, também, o maior vencedor.