O adeus de Mano e o retorno de Tite

Um ano após deixar o clube, Adenor Leonardo Bacchi, o Tite, retorna ao Corinthians.

Segundo treinador que mais dirigiu o clube e maior vencedor de títulos à frente da equipe, o gaúcho tem tudo para aumentar ainda mais seus recordes no comando do Timão. Sua despedida (no Pacaembu), após a última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013, deixou claro que o técnico se tornou um verdadeiro ídolo do clube.

No entanto, Tite está longe de ser unanimidade.

Duas grandes críticas são feitas a ele: uma, pontual, diz que “o time não joga bonito”, “há muita retranca”, etc. O curioso, nesse caso, é que são críticas vindas de quem geralmente cobra a seleção de 1982, por exemplo, por não ter ganhado a Copa, ou quem minoriza a história de Rivellino no Timão, apontando sua ausência de títulos com a camisa alvinegra.

Também, é claro, nenhum desses críticos trocaria um time “ofensivo” pela primeira Libertadores ou pelo Mundial do Japão.

A outra crítica feita ao trabalho de Tite se refere a uma suposta falta de criatividade e inovação, caracterizando-o como um “sortudo” que “soube aproveitar” boas heranças deixadas em trabalhos anteriores.

Na entrevista coletiva após a partida Corinthians 2×1 Criciúma – última rodada do Campeonato Brasileiro de 2014 –, um jornalista tentou arrancar de Mano Menezes algum ataque direto a Tite, ou alguma palavra que o considerasse esse “aproveitador”.

– ‘Como fica pra você ver novamente o mesmo filme se repetindo, em 2010 você deixou o clube tendo feito uma reformulação, para uma pessoa depois brilhar com essa equipe, e agora, novamente fazendo a reformulação, e a mesma pessoa vai assumir?…

Mano foi nobre ao não citar o nome de seu provável sucessor e muito menos dar a ele essas características. E outra coisa: o técnico que substitui Mano, agora, não é o mesmo que o substituíra em 2010. Ou ninguém se lembra do terrível Adílson Batista?

Adílson comandou o Timão entre meados de julho e final de outubro daquele ano. Nesse período, pegou uma equipe que liderava e estava invicta em casa e a fez emendar uma série sem vitórias e deixou-a fora da zona de Libertadores.

Foi esse o Corinthians que Tite assumiu.

Façamos um retrospecto do campeonato Brasileiro de 2010:

BRASILEIRO 2010

MANO

TITE

Rodadas

11 (1ª a 11ª)

8 (31ª a 38ª)

Desempenho

7V 3E 1D

5V 3E 0D

Pontos

24

18

Aproveitamento

72,7%

75%

Gols marcados

20

13

Média

1,81

1,63

Gols sofridos

12

3

Média

1,09

0,38

Em casa

6V (100%)

4V (100%)

Fora de casa

1V 3E 1D (40%)

1V 3E (50%)

Primeiros 10 colocados

5V 1E (88,9%)

3V (100%)

Últimos 10 colocados

2V 2E 1D (53,3%)

2V 3E (60%)


Obs.: entre a saída de Mano Menezes (julho) e a chegada de Tite (outubro), o Corinthians foi comandado por Adilson Batista, que obteve os seguintes números: 18 jogos (12ª a 29ª rodadas), 7 vitórias, 4 empates e 7 derrotas. 25 pontos em 54 disputados. Aproveitamento de 46,3%. Na 30ª rodada (empate) assumiu o interino Fábio Carlille.

Se desenhássemos, veríamos os desempenhos de Mano e Tite muito próximos, e o de Adílson discrepante.

grafico_tecnicos

Tite assume o Corinthians numa reta final de Campeonato, com o time completamente em crise técnica e arriscando fazer vergonha no ano de Centenário. Assume um time que perdeu de Atlético Goianiense em casa e estreia justamente no clássico de maior rivalidade. E vence o Palmeiras.

A equipe não sofre derrotas e leva apenas três gols, sendo um de pênalti e outro em falha individual do goleiro.

Porém, essa sequência de resultados deixou o Timão na terceira colocação do certame, sendo obrigado a participar da pré-Libertadores, o que afetaria toda uma programação para a temporada seguinte. Basicamente, desde que retornara ao Corinthians Tite não teve tempo para REALIZAR trabalhos: sempre foram jogos decisivos, e que demandavam vitórias urgentes.

Os jogos da fase classificatória aconteceram ainda em janeiro. E o resultado todos sabem: a tragédia na Colômbia, contra o Tolima.

Aquele foi o momento mais baixo da trajetória de Tite no Corinthians, e um dos piores da história recente da equipe. 99,99% dos torcedores o queriam fora da equipe. Mas o técnico foi mantido. Jogadores foram embora. Jogadores se aposentaram. Jogadores foram contratados. Jogadores saíram do banco de reservas. Nova filosofia de trabalho foi implantada. Novo esquema tático foi adotado.

[Leia, clicando aqui, excelente entrevista de Tite relembrando o fatídico momento]

E, a partir dali, uma sequência que somente outros 6 clubes a nível mundial conseguiram: título da Liga Nacional, do Torneio Continental, do Mundial de Clubes e da Recopa.

Entre o time que venceu a finalíssima diante do Chelsea em 2012 e aquele que Tite assumiu na reta final do Brasileirão de 2010, pouquíssimas semelhanças: somente Alessandro, Chicão, Ralf e Paulinho eram titulares nas duas ocasiões.

Paulinho, cerne da equipe que triunfou em 2012, foi “descoberto” e contratado por Mano: mas só se tornou protagonista com Tite. Da mesma forma, o Guerrero que chegou em 2012 e brilhou no mundial com Tite passou a ser peça-chave da equipe apenas na campanha do Brasileirão em 2014, com Mano.

De certa forma, os trabalhos de Mano e Tite se completam. No entanto, parece que é o gaúcho mais velho (Tite é de 1961, Mano de 1962) quem tem mais a cara do Corinthians.

Como disse Charles Gavin, “ele é o nosso Alex Fergusson”.

Valeu, Mano! Seja bem-vindo de volta, Tite!

 Marcel Pilatti